Diário de gravação (parte 2)


Hoje é dia 20/02, uma data palíndrômica perfeita para que se inicie a gravação de nosso novo álbum. Segunda-feira de carnaval. Eu cheguei no estúdio Nimbus pela manhã (quem me conhece sabe que acordar cedo não é minha praia) e já encontrei o Léo Baeta e o San Issobe (produtor de todos nossos discos) nos últimos preparativos para começar a passar o som da bateria. Em nossos discos, assim como na maioria das gravações de música popular, a bateria é o primeiro instrumento a ser gravado. A previsão é que o Léo termine de gravar as suas partes nesses dias que restam de feriado.

Assim que cheguei, dei a notícia para o Léo de que eu havia feito uma mudança de última hora em uma das músicas, intitulada “Ave”. Acontece que ontem de madrugada, quando eu a Lorena, o Leandro e a Luma terminávamos de gravar as guias, eu subitamente senti falta de uma repetição do refrão final dessa música. Como o Léo não estava presente nessa hora, ele ficou sabendo somente hoje. Obviamente a reação dele foi de estranhamento quando eu lhe comuniquei a mudança, sua expressão facial diazia: “Sério? Uma mudança na forma da música? Justo agora?”. Mas ele não reclamou, afinal ele sabe como funciona o processo criativo e tem ciência de que essas mudanças de última hora acontecem mesmo.

Curiosamente, essa pequena passagem me fez ficar pensando por horas, enquanto o som da bateria era minunciosamente passado peça por peça. Isso porque muito do que estudei e li essa semana coincidentemente tinha a ver com esse tema do processo criativo. Tudo começou na quarta-feira passada, com o Sílvio Moreira, que é meu parceiro de estudos (na verdade, é muito mais um professor) de longa data, tentando me explicar a conexão que ele via entre o tema do doutorado dele (que é sobre o filósofo alemão Ernst Cassirer) e o tema do meu mestrado (que é sobre Villa-Lobos). Nessa tentativa, ele me disse (Sílvio, me perdoe e me corrija se eu estiver errado), que, segundo Cassirer, uma das diferenças entre Ciência e Arte é de que a ciência trabalha com leis universais, enquanto cada obra de arte tem a sua própria lei imanente. Ele ainda me explicou que a lei imanente que rege cada obra de arte só é estabelecida quando a obra está completa (mesmo que a obra siga essa mesma lei).

Continuando essa conversa, ele sugeriu que eu lesse o capítulo “Musical Thought” (Pensamento Musical) do livro “Sound and Symbol: Man the Musician”, de Victor Zuckerkandl, e foi isso que eu fiz nesses dias que antecederam a gravação. Entre outras coisas, esse capítulo fala do livro de esboços do Beethoven, e compara algumas passagens que ali estão em rascunho com as partituras das obras finalizadas. Ele descreve como os rascunhos se desenvolveram até chegar ao resultado final, e mostra como Beethoven em alguns momentos optou por determinados caminhos que no final se revelavam insatisfatórios, e teve que voltar atrás e mudar o rumo. A todo momento, o autor nos lembra que essa análise só é possível porque nós conhecemos a obra final, previlégio que Beethoven não tinha quando escreveu os esboços. Em outras palavras, o artista, ao final de seu processo de criação, atinge um objetivo que ele nem sabia que existia. As questões que Zuckerkandl provavelmente quer levantar são: o que o compositor está buscando? o que guia tal busca? Talvez a resposta seja justamente a lei imanente que o Sílvio tentava me explicar.

Obviamente eu transpus essa idéia para as músicas que nós começamos a gravar hoje. Isso porque, todas essas músicas tiveram um longo processo de evolução desde a idéia inicial até agora. Todas elas tiveram outras versões, que soaram completamente diferente, e que, por mais que fossem o melhor que nós pudéssemos dar naquele momento, nunca nos satisfaziam por completo. Por isso, continuamos em frente, buscando soluções melhores. Como nós gravamos todos os nossos ensaios, e também fazemos nossos próprios rascunhos em partitura, podemos acompanhar esse processo desde as primeiras versões até àquelas que, enfim, julgamos definitivas. E ainda assim, no último momento, tínhamos novos ajustes a fazer. Tudo isso, guardadas as devidas proporções entre a nossa música e a de Beethoven, me pareceu muito com a discussão de Zuckerkandl.

Deixando de lado as divagações, vamos ao nosso primeiro dia no estúdio hoje. Depois de algumas horas, o som da bateria estava simplesmente perfeito. Passamos uma música para ter certeza, e como já era a hora do almoço decidimos comer antes de gravarmos, nesse momento chegaram todos da banda. Fomos na Dona Deola ali da Av. Pompéia.

Na volta do almoço, a gravação começou para valer. A primeira música que o Léo gravou foi “Penas”, uma balada da Lorena que tem climas bem diferentes. Essa diferença de climas obrigou o Léo montar duas caixas de medidas diferentes em seu set, assim ele pode tocar a primeira parte da música com uma caixa mais grave e a segunda parte com uma mais aguda. Na sequência, ele gravou uma música bem mais pesada (ainda sem título), com guitarras distorcidas e koto. O resultado realmente me surpreendeu!

Depois foi a vez de “The Leaf”, uma das minhas canções preferidas do álbum, com uma linha de bateria cheia de pequenos detalhes, que deram muito trabalho. A última de hoje foi “Padma”, uma música carregada de influências orientais, que tem algumas mudanças de fórmula de compasso e ritmos complexos de bateria e percussão. Essa foi a mais difícil do dia, e como todos (principalmente o Léo) estávamos cansados, e já era tarde, decidimos encerrar por hoje e voltar amanhã para gravar o resto. Estamos dentro do nosso cronograma planejado. Grande Léo Baeta!

Amanhã tem mais!!!

About cirovisconti

Guitarrista do Diafanes, professor do Conservatório Souza lima e colaborador da Revista Guitar Player myspace.com/cirovisconti myspace.co
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