Modos Eclesiásticos e formação do sistema tonal


Fala mestre!!!
Lembrei de um assunto q é um pouco nebuloso pra mim:
Por qual (ou quais) motivos decidiu-se escolher dentre os sete modos eclesiásticos, justamente os modos Jônio e Eólio para se tornarem os polos do sistema tonal? Quanto ao jônio ainda pode-se imaginar que seja pela possibilidade de cadências perfeitas, mas no modo menor (menor natural), originalmente, não há no campo harmônico essa possibilidade. O que exatamente levou o sistema anterior ao tonal à extinção (ou ao desuso)?
Essa é a pergunta… mas daí vem umas expeculações minhas… Talvês ajudem na formulação da resposta que eu estou procurando…
1-Sempre me pareceu interessante a simetria que há entre os acordes dos I, IV e V graus do modo maior (todos triades maiores) e I, IV e V do modo menor (todos triades menores)… Seria esse um dos motivos para a escolha do modo Eólio?
2-A criação de sensíveis artificiais é um ponto chave no encadeamento de vozes e foi justamente o que acarretou na criação das menores harmônica e melódica, que possibilitam cadências perfeitas. Mas isso ainda não esclarece muita coisa, já que o modo Dórico se parece mais com uma menor melódica, ou seja, teria mais características favoráveis a encadeamentos de vozes e acordes devido a seus intervalos, além de ter sido historicamente mais importante durante a antiguidade.
Bom… Devo estar fazendo uma massaroca do tamanho do universo… Ainda preciso estudar MUITO sobre harmonia pra realmente entender como tudo isso funciona… Mas se você puder me indicar um feixe de luz no fim do túnel, seria muito bom, hehehe…
Abração
Leonardo Delneri (via e-mail)

Na verdade o que aconteceu na passagem do sistema modal para o tonal não foi bem uma eleição dos modos Jônio e eólio como modelos das escalas tonais. Eu sei que muitos professores de teoria e de história da música colocam esse assunto dessa maneira, como se em algum ponto da história os músicos e compositores tivessem escolhidos esses dois modos para seguir em frente na evolução do sistema, mas isso é um truque didático que peca pela falta de exatidão.

Como disse em um post anterior ( https://cirovisconti.wordpress.com/2010/06/26/modos-eclesiasticos/ ) o sitema dos modos eclesiásticos teve duas fases: a primeira com oito modos, chamada Oktoechos; e a segunda com doze modos, chamada Dodecachordon, na qual foram incluídos o modo Jônio e Eólio. Como esses dois modos foram incluídos apenas em 1547, portanto no final do período modal, podemos imaginar que tal inclusão já seja uma consequência dessa transição, ou seja, a formação do Jônio e do Eólio já pode ser encarada como uma antessala para a escala maior e menor.

No livro Counterpoint: The Polyphonic Vocal Style of the Sixteenth Century, de Knud Jeppesen é explicado de forma bem detalhada como os modos estavam organizados no século XVI, o século da transição entre os sistemas. Nesse período cada modo tinha sua própria sensível artificial com a qual era feita a cadência. Dessa forma a cadência do modo Dórico era Dó# – Ré, e além disso a nota Sib era usada em diversas passagens. A cadência do modo Mixolídio era Fá# – Sol, e a nota Sib também era usada nesse modo. No modo Eólio a cadência era Sol# – Lá, e apesar da nota Sib não ser utilizada nesse modo, em muitas passagens a nota Fá# aparecia para evitar o passo aumentado entre a sexta e sétima nota (O Schoenberg também descreve o modo Eólio dessa forma no capítulo sobre o modo menor do “Harmonia”). No modo Jônio a cadência era obviamente Si – Dó, mas também nesse modo a nota Sib era usada em algumas passagens. Portanto a cadência perfeita poderia ser feita em todos os modos!

A conclusão que eu tiro disso é que na verdades todos os modos se condensaram no sistema tonal, não só o Jônio e o Eólio. Na verdade todos os modos foram ficando tão parecidos que acabaram se transformando em outro sistema. Veja que se somarmos todas as possibilidades de notas descritas acima teremos além da escala de Dó maior, a escala de Lá menor (nas 3 versões), a escala de Fá maior, de Ré menor (nas 3 versões) e a de Sol Maior, escalas que abrangem 3 regiões do círculo de quintas. Por isso penso que todos os modos foram condensados dando origem ao sistema tonal, e não apenas as tonalidades de Dó maior e Lá menor.

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Guitarrista do Diafanes, professor do Conservatório Souza lima e colaborador da Revista Guitar Player myspace.com/cirovisconti myspace.co
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3 Responses to Modos Eclesiásticos e formação do sistema tonal

  1. Robson Antonio Ferreira Junior says:

    Eu nunca ouvi falar de modos eclesiasticos até eu ler um materia da GP Brasil Falando do Mattias “Ia” Eklund …Interessante.

    • Bruno Correia says:

      Olá Ciro,
      Algumas correções:

      1) Dodecachordon é uma publicação de Henricus Glareanus e não uma fase modal!
      2) Realmente foram incluídos os modos jônico e eólio, não se esqueça de seus plagais, hypojônico e hypoeólio. Mas 1547 não corresponde ao fim do período modal, este se estende até a segunda metade do século XVII. O tonalismo só será estabelecido plenamente no século XVIII.
      3) Apesar da formação dos modos jônio e eólio ser idêntica ao da escala maior e menor natural, seu emprego na polifonia do Renascimento é bem diferente do que se imagina. O Jeppesen ilustra bem isso. Uma das diferenças é no uso das cadências, que podem ser feitas praticamente em qualquer grau do modo, ao contrário do sistema tonal clássico.
      4) O século XVI não é a transição entre os sistemas modal e tonal, isto ocorre somente no século seguinte.
      5) Sua conclusão é interessante, nesta linha de pensamento todos os modos estariam representados no tonalismo. Mas na realidade a sonoridade resultante é bem distinta do Renascimento, devido ao uso das cadências e as possibilidades do uso de si natural e bemol. Assim o o modo lídio nunca foi usado como manda a escala, o si era sempre bemol. Eles não gostavam do efeito harmônico do trítono, sempre evitavam este intervalo (melodicamente era mais aceitável).

      Grande abraço,

      Bruno Correia.
      (alaudista e doutorando pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

      • cirovisconti says:

        Puxa Bruno, muito obrigado pelo comentário!!! Incrível a contribuição! Na verdade, como vc pode imaginar, os sistemas modais não são meu forte. Queria aproveitar e lhe perguntar umas coisas sobre suas correções, se você não se importar:

        1) Eu sabia da publicação do Glareanus, mas pensei que esse sistema que ele propôs tivesse o mesmo nome. Não existe um sistema de doze modos chamados Dodecachordon? (eu pisei na bola chamando de fase).

        2) Eu realmente não quis mencionar os mofos plagais, mas considerando que houve praticamente mil anos de modos eclesiásticos antes do sistema de tonalidades, você não consideraria os últimos 100 anos como final desse período?

        3) Eu não entendi muito bem essa correção, na verdade nào sei exatamente a qual parte do que escrevi que você estaria se referindo.

        4) É verdade… aqui errei a data completamente!

        5) Pois é…essa conclusão é um pouco expeculativa, mas é um pouco influênciada pelo livro do Schoenberg.

        Muito legal ter um comentário de um alaudista aqui no blog de um humilde guitarrista! Agradeço muito!!!!

        Um abraço!

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